
Assumiu-se, há poucas semanas, como
candidato independente à presidência da Câmara Municipal de Terras de Bouro e
garante fazer uma campanha em torno de “ideias concretas” para potenciar as
riquezas do concelho. Filipe Pires recusa falar do passado e prefere anunciar
aos terrabourenses os seus projetos para potenciar o concelho e a marca
‘Gerês’. Turismo e produtos agrícolas de elevada qualidade serão forte aposta.
Terras do Homem: O que o levou a ser candidato à presidência da Câmara Municipal nestas
eleições autárquicas?
Filipe Pires: Esta é uma candidatura de quem anda no terreno, trabalha no terreno e
percebe as potencialidades que o concelho tem. Por outro lado, surge a candidatura
por constatarmos que o caminho percorrido até aqui não tem sido proveitoso.
Cada vez somos menos terrabourenses, a atividade empresarial é quase nula e,
por outro lado, os recursos são imensos.
TH: Quais são, no seu entender, as maiores potencialidades deste concelho?
FP: Creio que é o turismo. Acho que não vale a pena andarmos com meias medidas.
Turismo não é só vender alojamento, uma refeição económica ou um programa de
animação. É preciso muito mais. É preciso estruturar bem o setor. Para além do
turismo, ainda temos a agricultura e a criação de gado como áreas com alguma
força no nosso concelho. E até podem conjugar-se estas áreas. Há que criar
eventos âncora que promovam as nossas riquezas naturais e património imaterial.
É preciso vender e promover as nossas marcas mais fortes, como o Gerês. O Gerês
enquanto região.
TH: Qual a primeira decisão que gostaria de tomar como presidente da Câmara?
FP: Uma só não é possível apontar. Antes de mais, creio que o que é preciso
diagnosticar os problemas e identificar e explorar as potencialidades. Por
exemplo, Terras de Bouro tem um município com muita gente, mas em muitos casos
fora dos sítios onde podem render mais. Há que os pôr nos sítios certos,
motivá-los e pô-los a trabalhar eficazmente.
Após as eleições, queremos criar uma
dinâmica nova e valorizar os recursos. É o primeiro passo necessário. Há que
convencer as pessoas também desta nova energia positiva. Nós sempre vivemos
numa zona de montanha, oprimida. Mas sempre lutámos pelo nosso bem estar. Há
que recuperar esses exemplos dos nossos pais e dos nossos avós.
TH: O que acha que o concelho tem de melhor? Qual o seu ponto mais forte?
FP: Antes de mais, são as pessoas. São sempre o melhor recurso de um concelho.
Terras de Bouro e o Gerês são o que são, devido ao trabalho de muitas pessoas,
feito ao longo dos tempos. Depois temos condições naturais que podem dar enorme
rendimento turístico. Ao nível de produção agrícola, temos condições para
vender carne de excelente qualidade, queijos de excelência, entre muitos outros
produtos.
TH: E o que tem de pior o concelho de Terras de Bouro?
FP: Medo. Acima de tudo, o medo. Somos pessoas com medo de ter ideias próprias,
de falar delas, de discuti-las. Por via desse medo, habituamo-nos a viver no
compromisso e no benefício individual, ao invés de investirmos no progresso
comunitário. O medo encurta-nos a visão, tolhe-nos a vontade de empreender,
etc.
TH: Que grandes desafio se colocam à gestão municipal, na atualidade?
FP: O grande desafio passa por trabalhar no sentido de atrair pessoas e ideias
ao território e lutar por um projeto coerente de desenvolvimento. Por outro
lado, ter a capacidade de se envolver em políticas de âmbito mais regional,
para um desenvolvimento integrado.
No nosso caso concreto, creio que
também seria importante atrairmos, por exemplo, a sede nacional do PNPG para o
nosso concelho. Forçando e insistindo como sempre nos ensinaram os nossos
antepassados, poderíamos trazer novos serviços para a gestão municipal e, com
isso, delinear um projeto de desenvolvimento mais coerente.
TH: De que forma pode uma autarquia local contribuir de forma efetiva para
contrariar os efeitos da crise e promover o emprego e dinamização económica?
FP: Quer por essa capacidade de atração de investimento e de ideias para o território,
mas também pela capacidade de reivindicar mais investimento nas políticas de
desenvolvimento local e regional. É preciso ter voz. Nós queremos efetivamente
ter poder reivindicativo, em cooperação, por exemplo, com municípios vizinhos.
É fundamental que municípios vizinhos tenham a lição bem estudada e saibam o
que querem para a sua região.
TH: Como acha que tem evoluído o poder local em Portugal, quer em termos de
transparência, capacidade de resposta aos problemas e tipo de políticas
desenvolvidas?
FP: Tem evoluído positivamente, a meu ver. Temos municípios com trabalhos
extraordinários. No entanto, creio que os municípios poderiam ainda atribuir
mais competências às juntas de freguesias para que o desenvolvimento fosse
feito numa ótica ainda mais local. São o elemento mais próximo do povo, por
isso conhece melhor os seus problemas.
Um concelho dividido
TH: Em Terras de Bouro, ao longo dos anos, populações do Vale do Homem e Vale
do Cávado sempre cultivaram um sentimento de desfavorecimento municipal em
relação "ao outro lado do concelho". Sente que Terras de Bouro é um
concelho dividido?
FP: De facto, temos um concelho dividido por uma serra e com dois vales. E esse
sentimento é real, no íntimo de muita gente. No entanto, não julgo que essas
diferenças sejam necessariamente más. Pelo contrário, podemos aproveitar essa
energia em prol do concelho. Essas diferenças enriquecem-nos, porque podemos
levar as pessoas a experienciar o Gerês e, depois, o Vale do Homem. Há que
aproximarmos também, nessa perspetiva, o concelho. Podemos, no futuro, criar
uma ligação que ainda não existe, entre Cibões/Brufe, Campo do Gerês e Vila do
Gerês.
Dinamismo, transparência e ideias
TH: Que princípios norteiam a elaboração das vossas listas à Câmara e
Assembleia?
FP: A maioria de nós trabalha no território e abraça este projeto porque sente
as dificuldades na pele. Por outro lado, também conhece bem as potencialidades
e sente essa responsabilidade de assumir uma mudança. Mas uma mudança efetiva.
Porque até agora houve alternância, mas não se mudou a forma de ver e de se
fazer. No fundo, somos um conjunto de pessoas dinâmicas que querem um rumo
novo, isto sem olhar para trás e criticar o que foi feito.
Somos pessoas de ideias, jovens,
enérgicas e dinâmicas, com vontade de fazer.
TH: E ao nível das freguesias, vão apresentar candidaturas com o vosso apoio?
FP: Não, em princípio não. Vamos, acima de tudo, trabalhar junto dos candidatos
e das populações, apresentando as nossas soluções.
TH: Qual o principal trunfo que considera ter como mais-valia para ganhar as
eleições?
FP: Talvez o dinamismo da equipa, a transparência, mas sobretudo o leque de
ideias que temos para o concelho. Vai ser uma "luta" difícil, mas que
já estamos a ganhar porque já muita gente partilha de muitas das nossas ideias.
É a primeira vez que, nas autárquicas de Terras de Bouro, se debaterá ideias.
Perfil
Filipe Pires nasceu
a 6 de janeiro de 1969, na freguesia do Campo do Gerês - onde ainda vive -, é
casado e tem dois filhos. O candidato à presidência da Câmara Municipal de
Terras de Bouro é licenciado em Gestão de Empresas, pela Universidade do Minho,
depois de ter feito o ensino primário no Campo do Gerês, a Telescola em Covide
e o ensino secundário na Escola Alberto Sampaio.
Atualmente, é
gestor e empreendedor na área do turismo.
Fonte: Terras do Homem, em 4-07-2013
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